(in)visíveis
fotografia + ilustração digital
2009

Ver o invisível. Mostrar o invisível do que é visível. É isso o que alguns artistas conseguem. É isso que percebemos aqui, quando já estamos nesse outro lado do possível, tornado real através daquilo que as imagens de Ana Ventura desvelam.

Usa como matérias primas a pedra agida pelo tempo e pelo acaso. São muros, fachadas, paredes não de mundos interiores, mas que convivem abertamente com quem passa. Ana Ventura decifra-lhes a vida impressa na pele e dá-nos a ler as suas histórias. Mostra-nos sobretudo as personagens que os habitam.

O efémero que a ideia de passagem quotidiana implica é contrariado. E deixa de ser veloz o único adjectivo para a possibilidade de olhar o que nos rodeia. Apetece deliberadamente ver (e permanecer) em cada uma das cenas que não vimos quando nelas passámos alguma vez.

Por isso, solarmente nos contagia este trabalho. É um jogo que queremos também fazer, depois do prazer de adivinhar nas nuvens outros universos. E podemos começar desde já. Deliberadamente, Ana omite os títulos que pensou para cada uma das suas cenas, permitindo-nos imaginá-los. Solicita assim a nossa cumplicidade. É generoso um artista que o deseja porque a noção de arte como diálogo cumpre-se.

Mas... não resistimos:
Quem descobre a feia-adormecida e o seu beijo de acordar?
E o personagem falador, quem é? Meio homem, meio animal. Podia trabalhar num circo sim, mas apenas de capoeira.
E o que dizem os azuis nestas paisagens? Adeuses impossíveis? Vida e respiração para além do fim? Ou...

São cenas projectadas em lugares de passagem. Lembramo-nos dos filmes que aconteciam ao ar livre para todos. Só que, ao contrário do cinema, é de dentro para fora que emergem estas figuras. É preciso um interprete que as ilumine e nos ajude a reconhecê-las. É esse o trabalho de Ana Ventura. Uma paleontologia muito própria como método de descobrir nas camadas sucessivas de materiais as cintilações que perduram. Falamos de texturas, falamos de tinta, falamos de sombras, falamos de casca e do seu interior desnudado. Falamos de sinais e de marcas de uma existência transcorrida (que por isso se transforma e significa). Não são pinturas rupestres, mas podiam ser se lhes chamássemos outra coisa que o significasse na actualidade. Graffiti? Também não. Há um respeito maior pelas formas que o tempo quis desenhar naqueles lugares verticais. Ficam intactas e disponíveis para novas combinações. No seu atelier, Ana assinala-as cuidadosamente, seguindo o que fixou com o olhar. Elege subtis técnicas digitais para o fazer, num acto de envolvimento amoroso perfeito. Temos essa certeza absoluta ao contemplar cada uma destas fotografias.

dora isabel batalim
abril 2009